quarta-feira, 23 de abril de 2008

Viciado, maconheiro e sem-vergonha

É comum abrir um jornal aqui de Franca e deparar, especialmente na página principal, na manchete, com notícias escambrosas, violentas, repudiosas, enfim, que banhadas de sangue. Na verdade, esse post não tem a finalidade de discutir a questão da violência generalizada, e sim analisar e criticar, sob o meu ponto de vista, a atitude de que alguns repórteres abordam usuários de drogas.


Não foi a primeira (nem a segunda, nem a terceira) que cidadão francano X, usuário de drogas, é, por critérios do próprio autor, considerado viciado pelos veículos de comunicação. Ora, ou a coincidência é tamanha que os repórteres são conhecidos dos personagens (ok, não é difícil meliantes parar na DP mais de uma vez e, na ocasião, conceder entrevista aos jornalistas policiais), a ponto de julgá-los viciados; ou então têm o nível de inteligência limitado cuja capacidade de diferenciar um simples usuário de um viciado é, no mínimo, questionável.



Mas, a gota d'água foi reportagem publicada no último dia 8 de abril. Sob o título "Garotos usam Drogas à luz do dia no Jd. Bueno" (clique para a íntegra), a reportagem, TOTALMENTE tendenciosa, veiculou a imagem de dois garotos sentados, com um baseado na mão. Até aí, tudo bem. Porém, ao começar a leitura, já se percebe o teor e a direção do autor.

"Mulheres fazem caminhada nas ruas próximas e crianças brincam entre os bancos do local. Seria um cenário típico de final de tarde de domingo, não fosse por um detalhe: dois jovens se sentam em um banco, enrolam um cigarro de maconha e, entre gargalhadas, consomem a droga". E mais: "Nem ligam para a presença das outras pessoas. Vizinhos da praça dizem que a cena, embora absurda, é corriqueira no bairro". No fim, sob a fala de um capitão da Polícia, o jornal dá a dica: "As pessoas devem denunciar pelo 190 e, se possível, nesses casos, informar onde os viciados esconderam a droga”.

Sem questionar a legalização, descriminalização e métodos de tratamento à usuários, o fato é que viciado, segundo o Priberam, significa "corromper-se; deixar-se dominar por um vício; ficar obcecado". Será que todos usuários, sem exceções, se encaixam nesse perfil?

Que as drogas viciam, todos já sabem. Agora que álcool e tabaco também são drogas que viciam, aí, meu amigo, não importa, afinal, beber cerveja com os amigos, duas, três, quatro, cinco vezes por semana é algo bem visto, normal. Beber whisky, então, nem se fala. É coisa boa, é coisa fina! Entendam, de uma vez por todas, cada caso é um caso, cada pessoa é diferente uma das outras. Chega de banalizações, preconceitos e generalizações.

Profissionais da comunicação, é preciso rever os conceitos quanto ao tratamento que se deve à usuário de drogas. Nem todo usuário de droga é bandido, marginal. Bem como nem todo álcoolatra, certo? Mas, se assim continuar, depois não reclame pra Deus sobre a morte por cirrose ou câncer de pulmão de seu pai, filho, tio, sobrinha, avó etc, afinal, você aplaudiu enquanto eles ingeriam álcool e/ou as mais de 4,7 mil substâncias daquilo que se tornaram escravos e viciados até que a morte os separassem - ou não!


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